Entrevista: Otávio Zarvos, Idea!Zarvos e arquitetura na Vila Madalena

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Com seu investimento em arquitetura autoral, há 11 anos a incorporadora Idea!Zarvos altera a paisagem da Zona Oeste de São Paulo e mais particularmente da Vila Madalena. São 15 empreendimentos imobiliários assinados por alguns dos mais criativos e inovadores escritórios de arquitetura da cidade. Do traço de Isay Weinfeld, Gui Mattos e dos irmãos Nitsche, por exemplo, saíram edificações que impactam as ruas do bairro. Empresas estrangeiras, com a EBAC – Escola Britânica de Artes Criativas, também escolheram a incorporadora para implantar seus projetos no Brasil. Apesar de festejados e muitas vezes surpreendentes, os empreendimentos não escapam aos críticos da verticalização da Vila Madalena. O JSP conversou com a alma da Idea!Zarvos, o sócio-fundador e presidente, Otavio Zarvos, um paulistano de 49 anos, com formação em administração de empresas (FAAP), apaixonado por arquitetura e design, e também pela Vila Madalena.

JSP – Cada projeto tem a assinatura de um escritório de arquitetura diferente. A Idea!Zarvos faz o convite com a ideia do projeto pré-concebida ou espera uma proposta surpreendente?

O.Z. – Quando compramos um terreno já sabemos o que queremos.  Já temos em mente como será o prédio, de que lado a varanda ficará, por exemplo, e só depois chamamos o arquiteto. Obviamente outras ideias podem surgir e nós aplicamos a melhor delas para o projeto, mas em 90% dos casos a ideia original concebida aqui é a que prevalece.

JSPComo é feita e escolha do arquiteto?

O.Z.  O arquiteto deve ter um perfil com o qual nos identificamos e que seja reconhecidamente autoral. Um ótimo arquiteto, mas que só faça prédios para o mercado imobiliário mais convencional, não irá fazer um prédio para Idea!Zarvos. Independe da qualidade do trabalho dele.

JSP – Vocês trabalham com grandes nomes da arquitetura. Como vocês atraem esses profissionais?

O.Z.– Trabalhamos com grandes nomes e também com alguns que se tornaram grandes. Temos 11 anos de atividade e nomes, como o do arquiteto Isay Weinfeld já era conhecido, claro. Mas, outros escritórios, como o Andrade Moretin ainda não era famoso há alguns anos. Aliás, o primeiro prédio deles foi conosco. Com o Triptyque ocorreu o mesmo, o primeiro prédio também foi nosso. Foram apostas que hoje se provaram acertadas. E, nós, lógico ficamos felizes com isso. Uma aposta não, mas uma afinidade.

JSP Alguns moradores da Vila Madalena têm certa críticas aos empreendimentos da Idea!Zarvos, pois acreditam que a verticalização altera as características da região. Qual a sua opinião?

O.Z.- Minha posição é sempre a de que a Vila Madalena prospere. É preciso que o bairro se adapte, não fique parado no tempo e se atualize. É claro que as pessoas têm diferentes ideias de como isso vai acontecer e isso é absolutamente natural.  Eu vejo a Vila como o um bairro próspero e acho que ele melhorou muito nos últimos anos. Eu vivo aqui, não estou aqui há apenas 11 anos, eu moro, trabalho e invisto toda a minha grana neste bairro. Eu quero que fique o melhor possível. Ninguém quer que esse lugar dê mais certo do que eu. E acho que posso ajudar muito. As pessoas estão vendo a diferença do que eu construo e do que outras empresas constroem.

JSP- Você defende a verticalização do bairro?

O.Z.-Pelo contrário! Defendo que não se verticalize inteiro. A Vila Madalena se divide em três zonas. Na área próxima ao metrô passou a ser permitida a construção de prédios mais altos e é onde se encontra a maioria dos investimentos. Mas, ali não é a Vila que todo mundo conhece. As áreas mais famosas ficam em outros dois zoneamentos. Em um deles é permitido construir prédios de até oito andares, que são a maioria dos que eu faço. Já no outro zoneamento não pode fazer esse tipo de prédio, no máximo imóveis de três andares. A maioria das pessoas não sabe, mas eu lutei para que não fosse verticalizada essa área onde se concentram as casas. Com o novo plano diretor isso iria mudar. Mandei email para o secretário da habitação, João Whitaker Ferreira, para o Fernando Melo Franco, Secretário de Desenvolvimento Urbano e para o vereador Nabil Bonduki para alertá-los. E graças a Deus conseguimos fazer com que isso não mudasse.  Quase deixamos passar um assunto tão importante. O problema maior de se construir esses prédios altos é que quando eles ficam prontos, os preços dos alugueis aumentem, mudam instantaneamente com a valorização da área. ONGs, ateliês e outras mil atividades que existem nessa região, mas não têm condições e brigar com esse mercado são expulsos. Eles não conseguem concorrer com as grades empresas que atuam no miolo da Vila, por exemplo, e nem com os donos de restaurante e bares que têm uma boa grana.

JSP- Uma das bandeiras do JSP é a prevenção ao barulho na Vila Madalena, queixa frequente dos moradores. Como você se relaciona com o problema?

Compartilho desse descontentamento. Moro aqui, tenho três filhas, não bebo e durmo às 22h. Não frequento muito essa vida noturna. Mas acho que os bares são importantes porque a Vila Madalena é um bairro de encontros, mais do que qualquer lugar de São Paulo. Os bares são um dos símbolos daqui e  temos que preservá-los. Mas, acho que temos que tomar muito cuidado para que o bar não engula a Vila Madalena para começamos a afastar outras coisas legais. Talvez o bar em si ocupe apenas 20% do espaço físico, mas faz um barulho de 100%. Muitos desses donos de bares não agem dentro da lei, não moram aqui e estão dispostos a qualquer coisa. Não são todos, mas existem muitos. Temos que lutar para que eles ajam dentro da lei e que obedeçam à regulamentação que já existe.

JSP- Quais são as contribuições da Idea!Zarvos para a Vila Madalena?

O. Z. – A principal é trazer para o bairro mais densidade. Essa contribuição independe de fazermos uma doação ao bairro. Nossa atividade, que é projetar e construir coisas, ela tem que ser sinérgica com o bairro. Nós somos positivos para a Vila Madalena. Por exemplo, como falamos antes, a Idea!Zarvos foi responsável por manter esse zoneamento e controlar a verticalização, o que garante a permanência das pequenas lojas pela região. Imagine se não estivéssemos aqui. Nós ainda trouxemos uma enorme quantidade de pessoas para morar e trabalhar na região. O que permite que restaurantes possam abrir suas portas durante o dia e não apenas de noite, como era antes. Estou aqui fazendo prédios há 20 anos, 11 com Idea!Zarvos, mas antes com a outra empresa e posso garantir que antes os restaurantes apenas funcionavam durante a noite. Hoje em dia é diferente, inclusive, acho que a Vila é muito melhor de dia do que a noite. Também fazemos doações. Atualmente, contribuímos com o projeto Aprendiz. E ajudamos o centro comunitário que faz parte de uma COHAB que fica na Rua Natingui, patrocinando aulas para idosos, como dança e hidroginástica. Além da contribuição à Escola de Capoeira do mestre Gué, que ajuda crianças e jovens formando-os dentro da capoeira.

JSP – Qual cidade do mundo, em termos de urbanismo, poderia servir de modelo para São Paulo?

O.Z. – Eu já viajei o mundo inteiro, mas acho que São Paulo é uma das melhores cidades que conheço. Nós temos coisas que não damos valor, principalmente a nossa diversidade. Lógico que temos problemas de segurança, mas não é uma área de guerra, por exemplo. Não vejo  uma cidade como a mais legal do mundo. Todas as cidades têm coisas legais e também têm seus problemas. Adoro Nova York, Vancouver com seu acesso a natureza, cidades pequenas como Portland. Não creio que temos que importar nenhum modelo de cidade, devemos ser nós mesmos. Eu acho que a Vila Madalena representa muito bem o que é a cidade de São Paulo. Para mim, a Vila é a minha São Paulo, pois ela possui uma diversidade social e econômica. É um bairro ultraempreendedor. Ela tem capacidade para se mostrar ao mundo. Eu gosto sempre de pensar no bairro como uma pessoa, e a Vila para mim está amadurecendo muito bem. Atualiza-se, tem saúde, tem dinheiro – que também é importante – e continua evoluindo. A Vila envelheceu de uma maneira muito interessante. Não é mais um moleque louco e nem um velho chato. É como um hippie dos anos 70 que se atualizou e sabe usar a internet e junta tudo isso na hora de se expressar.

JSP – Em 2017 São Paulo terá um novo gestor, o empresário João Dória. Em relação ao planejamento urbano, o senhor teria alguma dica para o futuro prefeito? 

O.Z. – Eu daria três. A primeira seria a descentralização das tomadas de decisões dos bairros. Cada um precisa de coisas diferentes. Vila Carrão, Vila Madalena e Perus têm realidades distintas. Descentralizando essas decisões conseguiríamos ser mais específicos. A segunda sugestão seria a de aproximar mais os ricos dos pobres. Aqui na Vila Madalena seria proporcionar a construção de moradias mais econômicas. Ou seja, permitir que não apenas as pessoas com um pouco mais de dinheiro vivam pela região, mas também os trabalhadores passem a morar no mesmo bairro que os empresários. A última é apostar na vocação que cada um tem. Por exemplo, a Vila Madalena tem nitidamente uma facilidade de assimilar a economia criativa. Temos que elaborar incentivos fiscais para que as empresas venham para cá. Com a vinda dessas organizações para a Vila também seriam feitos lugares para os trabalhadores das empresas morarem, o que gera um círculo virtuoso que só ajuda o bairro. Nem toda região tem tão aparente sua vocação, mas por meio de pesquisa e das características de cada bairro, será possível desenvolver economicamente isso nele. Um bairro é igual a uma criança, se você percebe que uma criança, por exemplo, tem afinidade e facilidade com música, você vai ensina música para ela de uma vez. Não prorrogue essa vocação, senão você corre o risco de perder esse talento.

Veja alguns dos prédios concebidos pela Idea!Zarvos

                                        Ourânia 77 – de Gui Mattos – Rua Ourânia, 77 Vila Madalena

                                  W,305 – de Isay Weinfeld – Rua Wisard, 305 Vila Madalena

                                                                                         Otávio Zarvos



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