O jardim virou lixo

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Fátima Marques* 

Em 1982, quando me mudei para a minha casa na Vila Madalena, o bairro era tão tranqüilo, que ao voltar à pé da faculdade às 19 hs do ponto de ônibus até minha casa, eu estranhava um pouco: como as ruas quase só tinham residências, os poucos comércios do trajeto a essa hora já estavam fechados e o silêncio era quase desolador.O trânsito era muito discreto e havia tão pouca gente na rua à noite, que dava certo receio de caminhar sozinha.

Logo que nos mudamos sentimos a acolhida calorosa de todos os vizinhos: o pessoal da mecânica em frente veio conversar com meu marido e oferecer seus serviços. O pessoal da lavanderia veio nos dar as boas vindas. Assim como o dono do açougue – que era de Floripa -, o japonês e sua irmã, que vendiam frango e ovos, a equipe de arquitetos da ruínha, o pessoal da loja de roupas infantis, o pessoal da igreja de Santa Maria Madalena, na rua Girassol, todos vieram, uma hora ou outra, se apresentar e cordialmente nos convidar pra um café.

Havia uma inglesa que era ceramista e que duas vezes por ano abria seu ateliê para visitas do público e divulgação do seu trabalho. Na rua de baixo havia uma livraria, onde íamos quase todas as tardes procurar livros novos e encontrar amigos.

Era como uma cidade de interior, com calor humano e camaradagem, mas, ao mesmo tempo, era um bairro culturalmente refinado, com todos os tipos de profissionais liberais, bem típico da maior cidade da América Latina.

Minha filha, pequenina na época, foi estudar numa escola da Vila Madalena que passou a ser a extensão da nossa casa: professores, pais, diretores e funcionários se tornaram, todos, nossos amigos. E eram todos moradores da Vila Madalena.

Essa combinação única de metrópole/cidade de interior era tão fascinante, que realmente nos encantou.

Passados 35 anos, olhamos para a vila agora e nos perguntamos: o que sobrou disso tudo hoje? NADA!

Vocês podem dizer que estou exagerando, afinal as ruas são as mesmas, as casas sofreram apenas mudança inevitável do tempo e da modernidade… Mas não é verdade. Não restou NADA da Vila Madalena que nos recebeu 35 anos atrás.

Hoje, se fizer o mesmo percurso às 19 hs de uma quinta-feira, serei abalroada por multidões que se amontoam nas portas dos bares, com copo de cerveja na mão e terei de caminhar pelo meio da rua, com o risco de ser atropelada, porque os bares –um vizinho do outro – e seus clientes, ocupam todas as calçadas. O trânsito é o mesmo da hora do rush a qualquer hora do dia e da noite e há um engarrafamento a cada dez minutos, porque algum cliente parou o carro no meio da rua na frente de algum bar, para “escolher” – de dentro do carro! -, se é lá que ele quer beber. Sem contar que você ficará surdo depois desses dois minutos de caminhada, pois cada bar toca uma música diferente, todos com o amplificador mais potente no volume máximo, que foi posto na calçada, enquanto os cantores ali dentro usam microfones, mesmo que o bar seja um cubículo do tamanho de um elevador.

Onde está o escritório de arquitetura? Mudou-se. No seu lugar surgiu um….bar!

Onde está a lavanderia do casal, nosso amigo? Mudou-se. No seu lugar surgiu um…bar!

E o ateliê da ceramista inglesa? Mudou-se. E no seu lugar abriu um…bar!

E a escola onde minha filha estudou? Foi demolida e em seu lugar surgiu um prédio gigantesco, que aluga o andar térreo para um… bar!

O que eu sentia pela Vila Madalena de 35 anos atrás? Amor, puro amor. O  bairro inteiro era nosso lar, o mais emblemático de uma vida comunitária feliz, segura e amigável.

O que eu sinto pela Vila Madalena de hoje? Indignação, tristeza e medo.

Não só por mim, moradora, que vi o bairro ser invadido por gente de todas as regiões de São Paulo, que vem aqui só pra nos usar, para sujar as nossas ruas e se embebedar nos zilhões de bares que tocam pagode de péssima qualidade, com amplificadores ligados no volume máximo até as 5 horas da manhã. Antes de irem embora, no final da madrugada, esses mesmos clientes mal educados antes de irem embora aproveitam e urinam – ou vomitam – no meu portão ou em algum portão vizinho. Minha indignação, tristeza e medo não é só por mim, mas por todos os outros moradores e profissionais que foram literalmente EXPULSOS da Vila Madalena: a costureira, os arquitetos, os professores, a escola, o vendedor de frango, o tintureiro, a ceramista, todos EXPULSOS do bairro que ajudaram a construir, um bairro que era a prova viva do que significa vida comunitária bem sucedida.

E todos esses profissionais e serviços foram substituídos por quem? Por um único tipo de serviço: bar, bar, bar e bar, cada um com seu bloco de carnaval respectivo, que, financiados pela AMBEV, como se não bastasse a tortura a que nos submetem todos os outros dias do ano, tomam nossas ruas SEIS finais de semana em fevereiro e março, para usá-las como banheiro e nossos jardins como quarto de motel a seus freqüentadores bêbados, na época do carnaval.

O mais triste de tudo é que quem continua sustentando o bairro com impostos – um dos mais altos do Brasil – são os moradores, não os freqüentadores dos bares e nem dos blocos.

Quem limpa nossas calçadas somos nós, moradores.

Quem não dorme com 24 horas de barulho somos nós, moradores. Quem não consegue ir e vir dentro da própria casa, impedidos por centenas de clientes dos bares, somos nós, moradores.

De um bairro quase perfeito, equilibrado em termos de profissões e serviços, habitado por uma diversidade de profissionais e de moradores de todos os níveis de escolaridade, nossa queridíssima Vila Madalena se transformou num único, imenso e malcheiroso boteco a céu aberto, onde só o que existe, dia e noite, 365 dias por ano é: poluição sonora máxima, freqüentadores ignorantes, desrespeitosos, bêbados ou semi bêbados que entopem nossas calçadas e seus carros truculentos entupindo nossas ruas.

Os bares se impuseram na Vila Madalena como o pé de um gigante, que pelo poder do DINHEIRO, pisou no jardim florido que era o nosso bairro, reduzindo-o a uma montanha de lixo diário de garrafas vazias, copos de papel, cercados por um barulho ensurdecedor. O que antes era um bairro de todos, para todos, passou a ser um bairro só de alguns e para alguns: os bares e seus freqüentadores, que vem sempre de outras regiões da cidade. Na Vila Madalena de hoje, quem menos importa é quem mora nela.

Só nós, moradores e profissionais, podemos recuperar o que perdemos: nosso espaço em nosso próprio bairro, para que ele volte a ser o jardim florido que foi um dia, atendendo ao interesse de TODOS, em todos os sentidos da palavra BAIRRO.

A VILA MADALENA PEDE SILÊNCIO!

A VILA MADALENA PRECISA PARAR DE SERVIR OS FREQUENTADORES E VOLTAR A SERVIR OS MORADORES!

 

* Os artigos enviados e publicados com assinatura não refletem a opinião do JSP. Nosso objetivo é estimular o debate e a diversidade de opiniões sobre diversos aspectos das realidades dos bairros coberto pelo JSP.



comment 3 comentários

  1. Excelente explanação! Concordo e conte comigo para qualquer ação contra essa catástrófica e nefasta invasão, nasci e vivo na Vila Madalena há 64 anos 👏🏻👏🏻😎
  2. Parabéns pelo belíssimo texto Fátima. Um relato realista da nossa realidade. Fico triste quando lembro desta 'outra Madalena". A que conheci na década de 70 quando estudava na USP e depois quando aqui vim morar em 1995. Realmente era um bairro especial. Hoje sinto-me enganada, lesada, feita de palhaça. Quando reclamo nas redes sociais e e denuncio o vandalismo, sou chamada de "velha". Pobre de quem não teve a chance de conhecer ou viver aqui naquele tempo melhor. Guardo tudo no meu coração. Faço minhas malas e quero ir embora. Simplesmente: cansei.
  3. Típico comentário de uma elite exclusivista. As áreas mais bem localizadas da cidade e portanto integradora tem de ser alienada aos outros moradores da cidade para que possamos usufruir sozinhos e sermos a minoria a ser beneficiada, pois somos elite e o nosso espaço não pode ser compartilhado. A cidade cresce e se transforma. Em alguns caso para melhor e em outros para pior, mas a transformação é a marca de cidades "vivas". Querer impedir esta transformação por sonhos bucólicos é ver a cidade e o seu entorno de forma "egocêntrica" e "egoísta". Esta linha de pensamento é o mesmo dos moradores de Pinheiros ao lutarem para impedir a chegada do metrô. Esta visão é o conceito máximo do que é ver uma cidade buscando apenas uma visão de mundo própria sem se importar com o todo.

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